O CINEMA NA ESCOLA

by João Luís de Almeida Machado

Nada é mais essencial a uma sociedade que a classificação de suas linguagens. Mudar essa classificação, deslocar a fala, é fazer uma revolução. (BARTHES, 1999)

E como tem sido classificado o cinema senão como forma de lazer, de divertimento. Há estudiosos e críticos que entendem o cinema como sendo ferramenta das mais úteis à propagação de ideologias, formas de pensar, modos de agir. Artistas e pessoas ligadas à área de produção estética advogam a tese da produção cinematográfica como sendo a “sétima arte”. Existem trabalhos que observam o cinema como linguagem, ampliada por suas peculiaridades que unem imagens e sons. Outros por sua vez, percebem nos filmes possibilidades pedagógicas, educacionais. Prevalece, no entanto, a idéia do cinema como uma das alternativas contemporâneas mais populares de entreter as pessoas.
Em que grupo de pessoas você se encontra?
Será que você consegue perceber a arte dos diretores, figurinistas, músicos, atores, roteiristas, técnicos e demais realizadores num filme? Será que todos os filmes merecem nossa consideração como obras de arte? O que faz com que você atribua a um filme o status de obra de arte?
Ou você pertence ao grupo de pessoas que ao entrar numa sala de cinema começa a se perguntar quais os objetivos de tal afirmação do ator principal numa determinada cena? Será que não se pretende com isso fixar uma forma de pensar e agir, de acordo com o modelo político-ideológico dominante? Você presta atenção extrema no roteirista ou no diretor antes de entrar nas salas de exibição para ter certeza de que vai escutar idéias com as quais concorda?
Ou o cinema, para você, representa a máxima dimensão de comunicação já atingida pelo homem? Sons, músicas, diálogos, idéias variadas, imagens, tudo se misturando ao longo de sessões de 90 a 120 minutos (em média) exercitando suas possibilidades de se comunicar.
Ou suas idas ao cinema se referem exclusivamente ao lazer proporcionado pela possibilidade de se instalar confortavelmente numa cadeira almofadada, alimentando-se de algumas delícias típicas dos cinemas (como as pipocas e os refrigerantes), desligando-se do mundo durante o tempo de projeção das imagens e parecendo estar dentro das telas de cinema juntamente com os protagonistas da história que você está assistindo.
Ou ainda, você faz parte de uma turma de alunos, de ensino fundamental, médio ou universitário, que algumas vezes se vê diante de um vídeo ou visita um cinema de shopping para realizar atividades pedidas por um de seus professores? Assiste a um filme para compor relatórios, responder perguntas, trabalhar em grupos?
O interessante de tudo isso é perceber que uma ação não exclui a outra. É possível vivenciar todas essas experiências ao mesmo tempo. Fazer com que o cinema seja entendido como comunicação, lazer, posicionamentos político-ideológicos, arte e educação. Ao iniciarmos esse trabalho, a intenção que nos mobiliza parte do princípio de que o cinema, muito mais que simplesmente uma ferramenta educacional, carrega em si a essência do ser humano.
Ao abordarmos o cinema de diferentes maneiras como o fazemos nessa introdução, destacamos o cinema como expressão artística, política e ideológica, como forma de lazer ou de se comunicar, como uma maneira de aprender. Quem entre nós nunca vivenciou experiências como essas? Quem entre nós, a partir de uma determinada fase de nossas formações pessoais, profissionais ou culturais jamais vivenciou uma postura política (mesmo que de forma tímida, em muitos casos)? Quem nunca contestou as autoridades, as políticas sociais, os planos econômicos?
E a expressão artística? Desde crianças traçamos linhas, misturamos cores, tentamos reproduzir imagens, tiramos fotos e, mais recentemente, produzimos imagens em vídeos caseiros. Temos uma relação perene com o que é belo. Seja através de obras de arte como pinturas, esculturas, fotografias ou filmes, seja através das palavras expressas nas poesias, nos contos, nos romances.
Quando precisamos quebrar as rotinas, o cotidiano, o cansaço que se apossa de nossos corpos buscamos o lazer. Estiramos-nos nas praias ou nas piscinas, jogamos cartas, escutamos música, encontramos com os nossos amigos, vamos aos cinemas…
E que outra dimensão de nossa humanidade pode ser maior que a curiosidade que nos move em direção a novas informações, ao conhecimento. Que nos mobiliza em direção a educação. Para a formação das primeiras letras, dos primeiros sons, dos primeiros conceitos científicos. Que nos permite entender um pouco do mundo em que nos encontramos. Que abre as portas para que possamos nos relacionar com as outras pessoas.
São apenas algumas dos diversos componentes da essência humana. Encontram-se dentro de mim e de você. Encontram-se em nossos trabalhos, na nossa produção, em nossa cultura. Podem ser vistos em nossos livros e filmes.
Ao classificar os filmes como arte, lazer, ideologia, forma de comunicação ou ferramenta educacional, estamos dentro daquilo que a sociedade considera essencial.
Fazer com que a arte, o entretenimento, os posicionamentos e os elementos da comunicação contidos no cinema se tornem aliados dos educadores, passa a ser o nosso objetivo. Conseguir fazer com que os filmes, que contém todo um arsenal de recursos, extremamente lúdicos, que legam prazer a quem desfruta, se tornem elementos de consulta e referência de educadores e estudantes, apoiados por uma metodologia referencial se torna o propósito desse projeto de pesquisa.
Ao centralizar minhas atenções na questão da relação Cinema-História-Educação, procura-se responder a proposta de integração das referidas áreas do conhecimento. Para tanto foi utilizada uma referência cultural de grande repercussão, o filme A Missão, de 1986, do cineasta inglês Rolland Joffé. A questão das missões jesuíticas foi escolhida como temática histórica a ser estudada e entendida pelos estudantes que participaram da pesquisa. Foi proposta uma metodologia de trabalho científico que pudesse ser aplicada ao trabalho com estudantes de Ensino Médio e Fundamental.
A força das imagens e dos diálogos criados pelo cinema produz para a educação resultados que, na maioria das vezes, são desperdiçados ou, quando muito, subaproveitados. Apesar do advento de equipamentos como os vídeos ou o DVD, incorporados ao cotidiano das escolas e universidades, a utilização dos filmes de longa-metragem produzidos no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa ou em qualquer outra parte do mundo, como recurso que aumenta as possibilidades de compreensão, discussão, apreensão de diferentes referências, ampliação dos horizontes culturais, apreciação de outras estéticas ou discursos – entre tantos ganhos possíveis, ainda é mínima; o cinema nas escolas se parece com os livros empoeirados nas estantes das bibliotecas, disponível, porém, raras vezes utilizado (e, quanto isso acontece, mal aproveitado).
Explicações para tal fato existem muitas, dentre as quais se destacam:-

1. A necessidade de cumprir com os cronogramas e programas estabelecidos pelas Secretarias de Educação; não haveria espaço disponível nesta programação para encaixar outros elementos como os filmes.
2. A falta de conhecimento dos professores no que se refere aos filmes que poderiam ser utilizados e, especificamente, como os mesmos deveriam ser aproveitados.
3. A indisponibilidade dos títulos que estariam sujeitos ao aproveitamento pelos professores.
4. A idéia vigente nas escolas, entre alunos, direção da escola e mesmo professores de que o vídeo é um recurso utilizado para “gastar o tempo”, não havendo possibilidades didáticas na exploração de um filme de longa metragem.
5. A duração dos filmes de longa-metragem, nunca inferior a 90 minutos, que não seriam aplicáveis ao tempo disponível para cada aula (entre 45 e 50 minutos).
6. As formas como devem ser mobilizados os estudantes para as atividades. Faltam técnicas, estratégias e motivação para envolver os educandos.
7. Há professores que acreditam que o uso de vídeos implicaria no abandono dos textos programados para o estudo dos assuntos abordados no filme.
8. A ausência de espaços adequados para o trabalho com os filmes e, muitas vezes, equipamentos quebrados ou obsoletos.

As dúvidas expostas anteriormente compõem o cotidiano de vários professores que, desde o surgimento do vídeo na década de 1980, interessaram-se pelo uso dos filmes como recurso didático. Experiências foram sendo tentadas ao longo dos anos, no entanto, estudos acadêmicos aprofundados relacionando Educação, História e Cinema ainda não foram realizados.
É pertinente notar que, numa época de grande desenvolvimento tecnológico como aquela na qual vivemos, a escola também usufrua destas transformações de forma plena e, principalmente, consciente.
Não basta que os recursos materiais estejam disponíveis a todas as unidades educacionais, é imperativo que aos educadores e, conseqüentemente aos seus alunos, sejam dadas condições de utilização desses equipamentos de forma a permitir a ampliação das possibilidades educacionais e culturais como se pretende com a educação.
A presente pesquisa se propõe a esclarecer as formas de mobilização dos alunos no trabalho com os filmes que lidam com a história como tema ou referência fundamental (ou especificamente para os professores, como lidar com os filmes enquanto recurso didático), analisar a qualidade e as possibilidades desse tipo específico de material e averiguar as possibilidades de convivência e cooperação entre os filmes de longa-metragem e a bibliografia especializada.
A hipótese veiculada nessa pesquisa defende a tese de que os filmes representam um tipo específico de recurso cultural produzido pela humanidade, que pode e deve ser utilizado como ferramenta de trabalho nas escolas. Trata-se de um referencial que, por suas características específicas, marcadas pela utilização de várias mídias (sons, diálogos, imagens, músicas, fotografia), constitui um ícone da modernidade desde o seu surgimento. Por se tratar de um produto cultural atrelado ao tempo específico em que foi formulado, é ainda mais representativo, pois nos traz informações que nos colocam além da observação do elemento meramente superficial e objetivo contido na celulose. Roland Barthes já destacava em suas obras esse caráter de referência múltipla dos filmes, como podemos notar na seguinte observação:

Existirão outras mensagens sem código? À primeira vista, sim: são precisamente todas as reproduções analógicas da realidade: desenhos, pinturas, cinema, teatro. Mas, na verdade, cada uma dessas mensagens desenvolve de maneira imediata e evidente, além do próprio conteúdo analógico (cena, objeto, paisagem), uma mensagem suplementar, que é o que comumente se chama o estilo da reprodução; trata-se de um sentido segundo, cujo significante é um certo ‘tratamento’ da imagem sob a ação de seu criador e cujo significado – estético ou ideológico – remete a uma certa ‘cultura’ da sociedade que recebe a imagem. (BARTHES, 1990)

Para que esse elemento cultural complexo representado pelos filmes possa se tornar uma ferramenta realmente útil nos trabalhos em sala de aula, busca-se apresentar uma metodologia aplicada a diferentes grupos de estudantes que confirmem o uso desse recurso como sendo eficaz para promover debates, apresentar conceitos e idéias, permitir a comparação com a produção bibliográfica, estimular a ação dos estudantes e dinamizar o trabalho desenvolvido em aulas.
Há alguns contratempos, principalmente relacionados à diversidade de leituras (interpretações) que podem surgir a partir do uso dos filmes; por outro lado, isso pode ser muito importante para o enriquecimento dos debates (elementos disponibilizados na película que não foram observados ou entendidos como importantes por alguns alunos ou pelo professor podem se tornar referências destacadas para a compreensão dos fenômenos que se quer estudar ao se trabalhar com determinados filmes).
Um outro problema verificado se refere à dificuldade encontrada pelo alunato quanto à efetivação de um elemento fundamental para o trabalho com os filmes (e com todos os outros materiais usualmente utilizados em escolas e universidades), a leitura. Muitos estudantes têm dificuldades para lidar com as informações objetivas apresentadas pelos filmes, o que se esperar então no que se refere às leituras relativas ao material subjetivo, que se encontra nas entrelinhas?
Nos últimos anos têm se desenvolvido pesquisas em diversas instituições universitárias do Brasil e do mundo no sentido de incorporar as novas tecnologias ao cotidiano das escolas. Entre os estudos realizados no cenário nacional podem-se destacar trabalhos como o do professor José Manuel Moran, da Universidade de São Paulo, que através de seu artigo “Novas tecnologias e o reencantamento do mundo” nos apresenta idéias importantes como o “fascínio pelas tecnologias” reinante no período em que vivemos e onde nos chama a atenção para a velocidade no processamento de informações, as possibilidades da multimídia e a riqueza contida na grande variedade de diálogos que podem ser criados entre as pessoas, para as diferentes formas de interação estabelecidas entre as pessoas e os recursos disponibilizados e para a necessidade de adaptação a esta fase de transição em que nos encontramos inseridos.
É possível criar usos múltiplos e diferenciados para as tecnologias. Nisso está o seu encantamento, o seu poder de sedução. Os produtores pesquisam o que nos interessa e o criam, adaptam e distribuem para aproximá-lo de nós. A sociedade, aos poucos, parte do uso inicial, previsto, para outras utilizações inovadoras ou inesperadas. Podemos fazer coisas diferentes com as mesmas tecnologias. (MORAN, 1995)
Outro aspecto importante destacado por Moran em seus artigos é a relação que se estabelece entre os recursos e a educação, com destaque para o fato de que estes meios não podem e não devem se transformar em fins, ou seja, que computadores, vídeos, Internet, recursos de áudio ou qualquer outra tecnologia introduzida nas escolas e utilizada em aulas nada são além de ferramentas ou instrumentos que nos permitem facilitar e dinamizar o processo de ensino-aprendizagem; não devem ser, portanto, encaradas como a solução para os sérios problemas que os educadores têm que enfrentar no que se refere a relacionamentos com alunos, disciplina, organização interna das escolas, adequação do conteúdo às necessidades externas ou intercâmbio com outras instituições sociais. Moran se expressa da seguinte maneira:

O reencantamento, enfim, não reside principalmente nas tecnologias – cada vez mais sedutoras – mas em nós mesmos, na capacidade em tornar-nos pessoas plenas, num mundo em grandes mudanças e que nos solicita a um consumismo devorador e pernicioso. É maravilhoso crescer, evoluir, comunicar-se plenamente com tantas tecnologias de apoio. É frustrante, por outro lado, constatar que muitos só utilizam essas tecnologias nas suas dimensões mais superficiais, alienantes ou autoritárias. O reencantamento, em grande parte, vai depender de nós. (MORAN,1995)

Em seu outro artigo, “O vídeo na sala de aula”, Moran volta-se especificamente para a questão da utilização deste recurso na educação. De forma didática e elucidativa procura apresentar as vantagens e as dificuldades relativas ao uso dos filmes, destacando, por exemplo, como o “vídeo na cabeça dos alunos, significa descanso e não ‘aula’…” mas, que, por outro lado, “O vídeo está umbilicalmente ligado à televisão e a um contexto de lazer e entretenimento, que imperceptivelmente passa para a sala de aula”.
As dificuldades, porém, quanto à utilização do recurso filmográfico em salas de aula, a despeito da existência de material publicado em revistas especializadas, ainda são muitas, e as dúvidas, de variado calibre. Partem do elemento básico que é o conhecimento de uma filmografia adequada, que possa ser utilizada por cada professor, em sua referida disciplina; passam pelo conhecimento aprofundado que os educadores têm que ter a respeito das películas para que possam explorar suas melhores qualidades e estar a par de eventuais “erros”; enveredam pelo campo das técnicas de utilização e atingem, até mesmo, as formas de avaliação do uso do recurso e dos elementos concedidos pelo mesmo. Como responder essas questões? Por onde começar?
A popularização do videocassete entre o grande público, o que atingiu os professores em seu âmbito doméstico, e a chegada desses mesmos equipamentos às universidades, às escolas de nível médio ou fundamental e o barateamento das locações, tornando-as acessíveis a todos, vieram abrir as portas para que os professores pudessem ter contato com obras que podem ser referenciais em seu trabalho.
O aprofundamento quanto ao conteúdo dos filmes passa por questões de organização de acervos nas escolas ou pela concessão por parte das instituições educacionais de possibilidades de acesso aos títulos que de fato interessem nas aulas. Algumas redes de locação de vídeos e DVDs cedem filmes aos professores sem cobrança de taxas a título de reconhecimento e identificação de material que pode ser utilizado em aulas.
Quanto ao campo das técnicas de utilização e as formas de avaliação do uso do recurso e dos elementos concedidos pelos filmes, é o que se pretende responder através desse trabalho e também pelo projeto Cinema na Educação, desenvolvido com o apoio da Futurekids do Brasil e que tem se tornado conhecido nacionalmente através do portal educacional Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br).

REFERÊNCIAS

BARTHES, Roland. Crítica e Verdade. 3ª ed. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1999. 235 p.

BARTHES, Roland. O Óbvio e o Obtuso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990. 284 p.

BOLT, Robert. A Missão. Mem Martins, Portugal: Publicações Europa-América, 1983. 235 p.

MORAN, José Manuel. O Vídeo na Sala de Aula. Comunicação e Educação, ECA-Ed. Moderna, São Paulo, n.2, p. 27 a 35, jan./abr. de 1995.

MORAN, José Manuel. Novas Tecnologias e o Reencantamento do Mundo, Tecnologia Educacional, São Paulo, vol. 23, n. 126, 1995.

——–
Gentilmente enviado pelo colaborador:
Ricardo Mendes de Melhance Junior – ricardojr@hotmail.com – estudante – Novo Hamburgo/RS

Published in: on 19, abril 2008 at 1:56 pm  Comments (1)  

The URI to TrackBack this entry is: https://cinemagister.wordpress.com/2008/04/19/o-cinema-na-escola/trackback/

RSS feed for comments on this post.

One CommentDeixe um comentário

  1. disse tudo🙂


Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: